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A família que vibra

De tempos em tempos, o Brasil entra num estado curioso de nostalgia seletiva e pede, com uma convicção quase religiosa, a volta do Neymar. Não é análise tática, não é plano de jogo. É memória afetiva em estado puro. As pessoas lembram dos dribles, dos gols, do pênalti na final olímpica, que na lembrança já virou obra de arte. Lembram dos vídeos, dos melhores momentos, da trilha épica que transforma qualquer lance em eternidade. E, como manda o roteiro, esquecem que o jogo continua acontecendo hoje, sem trilha sonora e com placar valendo.


Eu entendo bem esse mecanismo porque eu fiz exatamente a mesma coisa, só que dentro da minha empresa.


Durante anos, eu comprei e vendi, a ideia da tal família que vibra. E não foi pouco. Eu levei a sério. Teve momento em que eu mesmo montei uma mini réplica do Google, onde só faltava o escorrega. Sede própria, vidro pra todo lado, design bonito, clima leve, aquele ambiente que, em teoria, faria qualquer pessoa produzir melhor só de respirar ali dentro.

Era quase um cenário perfeito. Faltava só combinar com a realidade.




Porque, à medida que parte dessa “família” não performava, eu me via fazendo o que todo líder acaba fazendo, mesmo quando não quer admitir: substituindo. E, curiosamente, as melhores substituições não estavam ali do lado, nem no happy hour, nem no almoço de sexta. Estavam em lugares como Cascavel, no Paraná, ou em Maceió, gente que eu nem conhecia pessoalmente, que não participava do ritual, que não vibrava tanto.


Mas entregava.


E entregava de um jeito que resolvia o problema, encantava o cliente e fazia a empresa andar.


Talvez eles não rendam boas fotos de cultura organizacional. Talvez não protagonizem discursos emocionados. Talvez não saibam nem o nome do cachorro de todo mundo do time.


Mas estão jogando o jogo que precisa ser jogado.


E aí a conta começa a fechar de um jeito meio constrangedor para quem acreditava que cultura, sozinha, sustentava performance.


Não sustenta.


Ajuda, claro que ajuda. Torna o ambiente melhor, as relações mais humanas, o dia menos pesado. Mas não substitui entrega. Não faz gol.


E é aqui que a nostalgia, seja no futebol ou na empresa, começa a cobrar seu preço. Porque é muito fácil se apegar ao que já foi bonito, ao que já funcionou, ao que já deu certo. Difícil é olhar para o presente e aceitar que o critério mudou.


Eu demorei um pouco mais do que gostaria para entender isso. Talvez porque, no fundo, seja mais confortável liderar com afeto do que com clareza. Afeto aproxima. Clareza, às vezes, afasta.


Mas empresa não é um espaço onde dá pra sustentar essa confusão por muito tempo.


Quem não está performando não é uma pessoa ruim. Não perde valor, não perde história, não vira descartável. Só não está performando. E, por mais humano que seja dizer o contrário, isso importa.


Eu continuo disposto a sentar, ouvir, tomar um chope, dar risada, acolher, ser amigo. Talvez até melhor amigo do que antes, agora sem misturar tanto as coisas.


Mas dentro da empresa, o jogo é outro.


Porque no fim, assim como no caso do Neymar, não é sobre o que já foi feito. É sobre quem resolve agora.


A família que vibra é bonita, rende boas histórias e dá um baita post.


Mas a empresa que quer vencer precisa de algo um pouco menos romântico e um pouco mais eficaz.


Gente que entrega.


Mesmo que não abrace tanto.

 
 
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