
O último trago
- Daniel Goraieb
- 12 de fev.
- 2 min de leitura
Estou definitivamente em crise com as tecnologias. Provavelmente fiquei velho. Ou virei aquele cara que reclama das coisas novas enquanto finge que está só observando o mundo com lucidez. Recentemente li um livro físico, desses de papel mesmo, com começo, meio e fim. Chama O desaparecimento dos rituais, do Byung-Chul Han. Já sei, eu sei. Começa assim mesmo: um sujeito citando filósofo coreano para justificar o próprio incômodo.
Mas enquanto eu lia, comecei a reparar em coisas banais. Meu pai com o jornal na mão, o cigarro entre os dedos, sempre o mesmo gesto, sempre o mesmo tempo. O cigarro acabava. Virava cinza. Era jogado fora. Tinha algo de honesto nisso. Hoje eu vejo jovens adultos grudados em cigarros eletrônicos que nunca terminam. Baforada após baforada. Não acaba. Não sobra nada. Não se joga fora. É um objeto que se recusa a morrer.
Não estou aqui defendendo o cigarro, antes que alguém se anime. Estou falando do fim. Da ideia de fim. Do fato de que agora tudo parece projetado para não acabar nunca. O feed não acaba. O vídeo não acaba. O trabalho invade a noite. A noite invade o trabalho. E até o vício foi otimizado para não ter último trago.
Talvez seja isso que me incomode tanto nos vapes. Eles são a metáfora perfeita desse tempo. Um tempo sem cinza, sem resto, sem encerramento. Você não sabe quando parar, porque não há um momento claro para parar. Só mais uma puxada. E mais outra. E outra. Como se o fim fosse um defeito de projeto.
Casamentos viraram arranjos flexíveis, viradas de ano viraram contagem regressiva no celular, livros viraram abas abertas. Nada fecha. Nada conclui. Tudo fica ali, em suspenso, como se terminar fosse admitir derrota. Como se acabar fosse uma ameaça.
Talvez seja por isso que a gente lida tão mal com o medo do fim. Com a morte. Com o encerramento das coisas simples. A gente nunca teve tanta dificuldade de aceitar que algo precisa acabar para outra coisa começar. Preferimos manter tudo ligado, carregando, funcionando em segundo plano.
Perdoem o saudosismo. É um mero sintoma de velhice. Ou de alguém que leu um livro físico recentemente e se sentiu mais profundo do que realmente é. Acho que não é nem nostalgia do objeto. Nem do jornal, nem do cigarro, nem da revista. É só uma parca saudade daquele gesto banal que dizia sem drama nenhum: isso começa aqui e termina ali.




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